Onde as horas descansam
Aguarde...

Prainha (RJ): o paraíso que foi salvo pelos surfistas

Perto de Grumari, a alguns quilômetros do centro do RJ, ainda preserva um ar selvagem. A fotógrafa Ana Carolina Fernandes prepara um livro com imagens estonteantes da ´rotina´ da região para lançar em 2018 

 

 

 

A relação de Ana Carolina Fernandes (vale a pena segui-la no instagram - @culafernandes) com a Prainha, no Rio de Janeiro, é feita de muitas (e lindas) imagens, mas também de várias histórias. Memórias de infância e, sim, algumas "nuvens escuras". Mas também têm muito sol e beleza. Para quem não conhece, o lugar fica na região do Recreio dos Bandeirantes, na Baixada de Jacarepaguá, perto de Grumari. Além de ser uma reserva natural – faz parte da Área de Proteção Ambiental (APA) que leva o mesmo nome –, a Prainha tem ondas que todo surfista deveria conhecer. E mantém, nas palavras de Ana, um "espírito romântico e lúdico”.

 

 

É esse o clima que ela busca até hoje em suas visitas constantes ao local. Cenário para muita introspecção - algo que, não coincidentemente, algumas das imagens deixam transparecer - e refúgio quando o mundo perdeu um pouco da graça, quando uma doença levou seu irmão Rodolfo, há seis anos. Foi nessa mesma época que a Prainha deixou de ser apenas retiro para se tornar uma nova inspiração para o seu trabalho.

 

 

“Quando eu comecei a fotografar a Prainha, meu irmão estava muito doente”, lembra-se. “Fotografar era a única coisa que me mantinha serena. Comecei a ir lá para meditar, ficar sozinha, estar no mar...”

 

 

No começo, Ana levava uma "camerazinha antiga, semi-profissional”. Mas os apelos do lugar e da memória motivaram a fotógrafa a sofisticar o olhar – e, consequentemente, o equipamento. “A Prainha tem um relevo lindo e uma pedra em que a vegetação forma um coração... Não preciso dizer mais nada, né?” Entre as coisas que mais atraem o olhar de fotógrafa, Ana destaca a luminosidade da paisagem. "Um contra-luz quase o ano inteiro que eu amo! A Prainha tem cheiro de praia selvagem. Tem essa coisa meio de ser de um tempo mais devagar.

 

 

Salva pelo surf

 

Além da beleza e contemplação, o esporte mais "espiritual” de todos, na opinião de Ana, é dos principais atrativos da Prainha. Sempre é possível encontrar um surfista por lá. Aliás, foram eles que "salvaram" a Prainha, no final dos anos de 1990, quando uma construtora se interessou em erguer condomínios no local. Os surfistas se mobilizaram e fincaram as pranchas para impedir que o paraíso fosse perdido.

 

 

O resultado foi que a região passou a ser protegida pelo Estado e transformada em área florestal de proteção permanente. O que impede qualquer novo empreendimento, além das estruturas já existentes. “Eu me lembro dessa luta. Acompanhava pelo que saía nos jornais". Embora trabalhasse na sucursal carioca do jornal Folha de S.Paulo, na época, Ana acabou não tendo a chance de cobrir essa história. “Mas comecei a pesquisar e a conversar com os surfistas que viveram isso depois que passei a fotografar a Prainha regularmente”.

 

 

Livro em 2018

 

Transformar a série em um livro é um projeto que Ana tem na mente e na alma, “por ser totalmente espiritual”, como define. O plano, por ora, é aguarda a luz de outono - "que, ainda bem, começa em breve, o verão no Rio foi de calor insuportável" - e aumentar o acervo de imagens. "Quero passar pelo menos uma semana morando ao lado da Prainha para fazer uma imersão fotográfica mesmo, e também fotos de helicóptero e de barco".

 

 

A crise econômica que afetou o país dificultou a captação de recursos para projetos fotográficos, mas Ana confia no momento certo. "Nós vamos conseguir! A ideia é lançar o livro provavelmente em 2018". Até lá, ficam as histórias de infância, a importância do mar, as lembranças do irmão. Uma essência que passa mesmo longe das urgências desse mundo. “O Rodolfo morreu em agosto de 2011, e nunca mais parei de ir à Prainha. Lá é onde sinto a presença dele mais forte perto de mim. E o livro será dedicado a ele”.