Boyish: clássicos masculinos para elas
Aguarde...

Boyish: clássicos masculinos para elas

Os conceitos de "dele" e "dela" se misturam nesse estilo de se vestir inspirado nas peças resistentes e confortáveis que um dia foram só dos rapazes

 

                                     A enfermeira Claire Randall, da série Outlander: sapatos monk strap e saia midi

 

Entre idas e vindas no tempo, a série Outlander faz sucesso no Netflix com a história da enfermeira inglesa Claire Randall (vivida pela atriz irlandesa Caitriona Balfe). Embora a maior parte da primeira temporada se passe no ano de 1743, no primeiro capítulo a personagem vive na década de 1940, exatos seis meses após o fim da Segunda Guerra Mundial.  
 

Do figurino ao roteiro, Outlander é um primor. Mas aqui é do figurino que queremos falar – e ele dá uma aula. Numa das cenas iniciais vemos Claire descer do carro: um monk strap nos pés, uma saia midi e uma camisa.  Os anos 40 estavam todo ali, vestido nela: trench-coats estruturados, cores sóbrias (marrom, azul escuro), e saias/vestidos de shape mais amplo. Mais tarde, no século 21, o estilo que se vale de peças, cortes e padronagens ´masculinos´ seria chamado de boyish - embora não houvesse esse nome na década de 40, de certa maneira havia algo bem boyish no guarda roupa das mulheres da época.

 

Camisas, blazers, sapatos oxford, calças justas e largas: o boyish mistura várias referências

 

 

Um pouco de história
Como sempre, é a história que dita a moda. Nas primeiras décadas do século, com os homens nos campos de batalha das duas Grandes Guerras, as mulheres passaram a trabalhar fora de casa. A calça foi a primeira peça a migrar para o corpo feminino - respeitando a regra da praticidade que a nova condição feminina exigia.

 

Beyoncé de gravata e blazer acinturado

 

A estilista francesa Coco Chanel (1883-1971) viu, naquela realidade vinda das ruas (e fábricas), uma tendência. E, nos anos de 1920, mostrou ao mundo suas primeiras versões de calças desenhadas para as mulheres. Não foi ali, ainda, que a peça entrou com força no guarda roupa feminino, mas foi a primeira vez que as mulheres viram outra possibilidade além de vestidos estruturados, pesados e, muitas vezes, tão apertados na cintura que chegavam a ser sufocantes.

 

O macacão ganhou espaço entre as mulheres nos anos 70

 

Tal como a história não é linear, o século 20 serviu para mostrar a moda que muitos estilos podem conviver, sem necessariamente um excluir o outro. Mas para chegarmos à moda de hoje, quando, ineditamente, há uma profusão de tendências, os diferentes jeitos de se vestir foram se firmando ao longo das décadas, ora bridando a um estilo ora a outro. E a regra era a exclusão: todo mundo vestia-se praticamente igual. Isso começou a mudar dos anos 60 para a frente, quando, não por coincidência, as mulheres de fato começaram a se firmar no mundo do trabalho.

 

Cintura alta e camisa branca

Se nos anos 40 as peças masculinas habitaram a moda feminina, nos anos 50 vestidos, saltos, saias longas, rodadas e acinturadas, luvas e busto justo reinaram absolutos, inspirados pelo New Look proposto por Christian Dior (1905-1957). A Segunda Guerra Mundial havia terminado e o desejo coletivo era de fartura, bonança e muito glamour, para afastar a imagem dos canhões, a dureza dos racionamentos e a depressão da escassez de recursos.
 

O estilista deu o pontapé inicial para esse novo guarda roupa precisamente às 10h30 do dia 12 de janeiro de 1947, quando apresentou sua primeira coleção à imprensa e convidados, na avenida Montaigne, em Paris. Ele mostrou uma mulher sexy, chique e usando muito tecido (de 10 a 25 metros num único conjunto de saia e terno). O New Look influenciou toda a década de 1950.

 

Calça de alfaiataria em tom terroso com oxford preto

Então vieram os anos de 1960 e trouxeram novos enredos e cenário para mais uma transformação - desta vez, de costumes. Com seu famoso Le Smoking, Yves Saint Laurent desdisse Dior. O famoso conjunto de calça e paletó tinha um corte bastante feminino, mas voltava a explicitar o desejo de a mulher misturar o seu estilo com coletes, ternos, paletós, calças. Era como se elas estivessem dizendo ao mundo que a feminilidade tinha outras formas.

Os macacões voltariam nos anos de 1970 (amparados pelo termo unissex) e até as gravatas seriam incorporadas (na virada dos 1980 para os 1990) e... Bem, Coco Chanel estava certa.

 

O que temos hoje    

As peças masculinas sempre foram e voltaram da moda feminina, até que fincaram pés de vez

 

A atriz Keira keira knightley e o ator Mark Ruffalo em cena do filme Mesmo Se Nada Der Certo: figurino com inspiração boyish 

 

Blazer - Já uma realidade entre os homens, no ínicio do século 20, ganhou suas primeiras "versões femininas" em criações de Coco Chanel.

Camisa branca - A camisa branca já não é exclusividade masculina há muito tempo - e, novamente, temos Coco Chanel saindo na frente inventando essa moda. A peça consegue ser combinada tanto em looks sóbrios, para o trabalho, como em produções mais despojadas.

Sapatos Oxford - O ano de 2016 na moda feminina não deixou dúvidas: os pés das mulheres são deles. O sapato oxford femininoganhou versões especiais que vão bem com qualquer tipo de peça, de legging a vestidos

 

Conheça os modelos Oxford femininos da LOUIE

 

Camisa polo - Essa nasceu nos campos do esporte de mesmo nome (ambiente caracteristicamente masculino). Rene Lacoste e Ralph Lauren são os grandes responsáveis por tirá-las do contexto esportivo e levá-las às ruas.  

Óculos aviador - Nem o fato de ter sido criado (pela Baush & Lomb) a pedido de um tenente do exército americano (o aviador John A. Macready) conseguiu impedir que o modelo caísse no gosto das mulheres. Nos anos de 1960, quase três décadas depois de seu surgimento, a popularização do aviador entre os "civis" incluiu também as meninas.  

Smoking feminino - Luxo no volume máximo desde que Yves Saint Laurent apresentou sua versão desenhada especialmente para as mulheres, em 1966. Na época, a dupla paletó e calça significou mais liberdade para elas - fato intimamente ligado à luta por mais espaço no mercado de trabalho.

Trench-coat - Lá em 1942, na cena final do clássico Casablanca, vemos Ingrid Bergman se despedindo de seu amor (Humphrey Bogart) usando um desses - originalmente feitos de gabardine, resistente à chuva. Mesmo não sendo muito comum no guarda-roupa dos brasileiros (ou brasileiras), a peça é um clássico que transita entre os armários.

O famoso "Le Smoking", de Yves Saint Laurent

 

Calça jeans - Novidade nenhuma que o jeans é o básico dos básicos no guarda-roupa de TODO mundo. Mas na hora de brincar com modelagens e tamanhos (para compor um look mais descontraído) a calça boyfriend – que nada mais é do que aquele jeans larguinho e de corte reto, só que usado por elas – é essencial.

 

Blazer em versão mais comprida e ampla